Entenda o que é o Setembro Amarelo, por que o suicídio é considerado uma emergência psiquiátrica e como o tratamento adequado pode transformar e salvar vidas.
Se você chegou até este artigo, talvez esteja curioso sobre o significado do laço amarelo que ganha destaque em setembro. Ou talvez esteja passando por um momento difícil, ou conheça alguém que está. Seja qual for o motivo, este é um espaço seguro e acolhedor para entender melhor o assunto.
Falar sobre suicídio não é fácil. Mas o silêncio nunca protegeu ninguém. Pelo contrário: é justamente a conversa aberta, informada e sem julgamentos que abre caminho para o cuidado. É exatamente esse o propósito do Setembro Amarelo.

Sobre a Dra. Giovana Pellissari

A Dra. Giovana Pellissari é médica formada pela Univille, com residência médica em Psiquiatria pela Clínica Heidelberg, onde também atuou como preceptora na formação e treinamento de novos médicos psiquiatras.
A Dra. Giovana conduz sua prática clínica partindo do princípio de que cada pessoa é única e necessita de um plano terapêutico personalizado. O cuidado em saúde mental vai muito além da prescrição de remédios: fundamenta-se em vínculo terapêutico sólido, escuta ética, empatia e rigor técnico.
- • Ética médica e respeito absoluto à trajetória individual de cada paciente;
- • Sigilo e confidencialidade rigorosos em todas as etapas do atendimento;
- • Abordagem integral e humanizada, focada na recuperação da qualidade de vida e autonomia;
- • Atualização científica contínua alinhada às melhores práticas da psiquiatria contemporânea.
Mas afinal o que é o Setembro Amarelo?
O Setembro Amarelo é a campanha nacional de conscientização e prevenção ao suicídio. Ao longo do mês, o país se cobre de amarelo em prédios, pontes, monumentos e redes sociais para lembrar que existe um problema de saúde pública sério.
A campanha não fala sobre suicídio como um tabu distante. Ela fala sobre pessoas reais, sofrimentos reais e, principalmente, sobre a possibilidade real de ajuda.

Como e quando o movimento começou
A cor amarela como símbolo de prevenção ao suicídio surgiu nos Estados Unidos, na década de 1990, a partir de da historia da família do jovem Mike Emme, que tirou a própria vida aos 17 anos, quev distribuiu cartões com fitas amarelas em seu funeral , a cor do carro Mustang 1968 que ele mesmo havia restaurado, convidando qualquer pessoa em sofrimento a buscar ajuda e conversar.
No Brasil, o Setembro Amarelo foi oficializado em 2015, por iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A data central de mobilização, o 10 de setembro, marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por que essa campanha é tão importante?
A relevância do Setembro Amarelo vai muito além da iluminação amarela nos espaços urbanos. A campanha existe para:
- • Romper o isolamento e o silêncio que cercam o sofrimento emocional
- • Desconstruir mitos e preconceitos que impedem o reconhecimento precoce dos sinais de alerta
- • Orientar a população sobre onde, quando e como buscar atendimento especializado
- • Promover o diagnóstico e o tratamento adequados das doenças psiquiátricas
- • Reafirmar o valor da vida, lembrando que a dor emocional, por mais profunda e paralisante que pareça, pode ser tratada

Suicídio: uma emergência psiquiátrica que precisa ser levada a sério
É comum que o suicídio ainda seja tratado como um assunto “delicado demais” para se discutir abertamente. Mas, do ponto de vista médico, ele deve ser compreendido de forma muito clara: o suicídio é uma emergência psiquiátrica.
Isso significa que, assim como um infarto exige atendimento médico imediato, um quadro de risco de suicídio também exige avaliação e intervenção urgentes. Não é “frescura”, não é “fase” e não é uma escolha simples, sendo na grande maioria das vezes, o desfecho extremo de um sofrimento psíquico intenso, muitas vezes ligado a doenças psiquiátricas não tratados ou tratadas de forma inadequada, como: depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, dependência química, anorexia, personalidade borderline, transtornos de ansiedade, entre outros.
Um dado que precisa ser conhecido
O suicídio está entre as principais causas de morte entre jovens e adultos jovens no mundo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, ele figura consistentemente entre as principais causas de óbito na faixa etária de 15 a 29 anos, sendo considerado, por muitos anos, a segunda causa de morte entre jovens em diversos países, incluindo o Brasil.
Esse dado não deveria assustar para paralisar, mas deveria mobilizar. Porque, diferentemente de muitas outras causas de morte nessa faixa etária, o suicídio está diretamente relacionado a condições tratáveis.

Quais transtornos psiquiátricos aumentam o risco de suicídio?
É importante entender que o suicídio raramente acontece de forma aleatoria. Na grande maioria dos casos, ele está associado a uma doença psiquiatrica de base sendo muitas vezes não diagnosticado ou não tratado adequadamente. Conhecer essas condições ajuda a entender por que o acompanhamento psiquiátrico é tão importante e por que buscar ajuda precocemente faz tanta diferença. A seguir algumas das doenças nas quais esse desfecho pode ocorrer:
- • Depressão: Vai muito além de uma tristeza passageira. Caracteriza-se por perda marcante de energia, anedonia (incapacidade de sentir prazer), alterações no sono, no apetite e uma sensação profunda de desesperança. Quando não tratada, a dor psíquica intensa pode fazer a pessoa enxergar a morte como a única forma de cessar o sofrimento.
Clique aqui para ler mais sobre depressão. - • Transtorno Bipolar: O risco é especialmente elevado durante as todas fases, mas tende a ser maior nas fases depressivas e nos estados mistos (quando sintomas depressivos e de aceleração/agitação coexistem). A instabilidade clínica e a impulsividade tornam o acompanhamento psiquiátrico contínuo indispensável para manter o humor estável.
Clique aqui e saiba mais sobre transtorno bipolar. - • Transtornos de Ansiedade: Quadros graves de ansiedade generalizada ou pânico mantêm o organismo em constante estado de ameaça e exaustão mental, frequentemente coexistindo com a depressão e potencializando a sensação de esgotamento.
Clique aqui para ler mais sobre ansiedade. - • Transtornos de Personalidade (como o Transtorno de Personalidade Borderline): Caracterizam-se por marcante desregulação emocional, sensação crônica de vazio, hipersensibilidade à rejeição e elevada impulsividade. O sofrimento psíquico costuma ser intenso e reativo a conflitos interpessoais, gerando episódios de crises agudas, autolesão e comportamentos de risco.
- • Esquizofrenia e Outras Psicoses: Alterações na percepção da realidade, alucinações de comando e o impacto do diagnóstico podem elevar o risco, especialmente nas fases iniciais e nos períodos de descompensação.
- • Transtornos Alimentares (como a Anorexia Nervosa): Apresentam elevado sofrimento psíquico e clínico, com distorções profundas da autoimagem, desnutrição e frequente associação com depressão.
Clique aqui e saiba mais sobre compulsões alimentares. - • Transtornos por Uso de Substâncias (Dependência Química): O consumo abusivo de álcool e outras substâncias atua como um fator duplo: muitas vezes é usado na tentativa inadequada de aliviar uma dor prévia, mas gera neuroinflamação, rebaixa o limiar de impulsividade e agrava sintomas depressivos.
Ter o diagnóstico não significa que a pessoa tentará contra a própria vida. Significa, sim, que o quadro exige diagnóstico precoce, acompanhamento especializado e plano de cuidado contínuo, fatores que mudam completamente o prognóstico.
Reconhecendo sinais de alerta
Nenhum sinal isolado, sozinho, define um risco. Mas alguns comportamentos e vivências internas merecem atenção redobrada, especialmente quando aparecem juntos ou representam uma mudança em relação ao comportamento habitual da pessoa.
Sinais internos, muitas vezes invisíveis aos outros:
- Pensamentos recorrentes sobre morte ou sobre “não querer mais estar aqui”, mesmo que a pessoa não verbalize isso abertamente.
- Planejamento, ou seja, começar a pensar em como, quando ou onde
- Falta de perspectiva de futuro, a sensação de que “nada vai melhorar” ou de que não há mais saída para o sofrimento atual.
- Sensação de ser um peso para as pessoas ao redor.
- Isolamento social repentino ou intenso
- Mudanças bruscas de humor
- Aumento da impulsividade: decisões precipitadas, comportamentos de risco ou reações desproporcionais que não eram habituais.
- Desistir de atividades, planos ou relações que antes eram importantes.
- Doar pertences pessoais sem motivo aparente
- Aumento do uso de álcool ou outras substâncias.
- Alterações importantes no sono e no apetite.
A combinação entre falta de perspectiva e impulsividade costuma ser especialmente preocupante: é justamente quando a pessoa não enxerga saída e, ao mesmo tempo, tem menor controle sobre os próprios impulsos, que o risco tende a ser maior.
Se você identificou algum desses sinais em si mesmo ou em alguém próximo, isso não deve ser ignorado. Buscar avaliação profissional é o passo mais responsável e mais corajoso que se pode dar. E é fundamental.

O tratamento psiquiátrico muda e salva vidas
Aqui está o ponto mais importante deste artigo: o suicídio, na imensa maioria dos casos, pode ser prevenido. E a prevenção é essencialmente um tratamento psiquiátrico adequado.
Muitas pessoas adiam a busca por ajuda por acreditar que “vai passar sozinho”, que “não é tão grave assim” ou que “psiquiatra é para casos extremos”. Nenhuma dessas crenças é verdadeira.
Clique aqui para saber mais sobre o que é a psiquiatria, e como ela pode te ajudar.
Como o acompanhamento psiquiátrico ajuda ?
O tratamento psiquiátrico não se resume a uma consulta isolada. Ele é um processo, construído com escuta, avaliação cuidadosa e acompanhamento contínuo, que pode incluir:
– Avaliação clínica detalhada, para entender a história de vida, os sintomas e os fatores de risco de cada pessoa.
– Diagnóstico correto, essencial para direcionar o tratamento certo
– Acompanhamento terapêutico contínuo, em parceria frequente com psicoterapia;
– Construção de uma rede de apoio, envolvendo família, quando possível, e outros pontos de cuidado;
– Plano de segurança individualizado, para momentos de crise.
Em alguns casos, quando o risco é considerado elevado ou o sofrimento está muito intenso, pode ser necessário um cuidado mais estruturado, como internação integral ou hospital-dia, por um período. Essa decisão não é sinal de fracasso do tratamento, pelo contrário: é uma medida de segurança, que oferece suporte próximo e constante enquanto a pessoa atravessa o momento mais agudo da crise, até que consiga retomar o acompanhamento ambulatorial com mais estabilidade.

O papel da rede de apoio
Nenhum tratamento acontece isolado da vida real da pessoa. A rede de apoio (família, amigos, parceiros ou até colegas de confiança) tem um papel importante :
– Durante o tratamento, apoiando a adesão ao acompanhamento, ajudando a identificar mudanças de humor e incentivando a continuidade do cuidado, mesmo quando a pessoa está desanimada
– Nos momentos de maior fragilidade, servindo como uma rede de proteção real: alguém para quem ligar, conversar ou pedir ajuda quando o sofrimento fica mais intenso.
Ter para quem recorrer não substitui o tratamento psiquiátrico, mas fortalece cada etapa dele. E, para quem está ao redor de alguém em sofrimento, oferecer escuta sem julgamento, sem tentar “resolver” ou minimizar a dor, já é uma forma poderosa de cuidado.
Buscar ajuda profissional faz toda a diferença
Pessoas que recebem tratamento psiquiátrico adequado apresentam melhora significativa na qualidade de vida, redução dos sintomas e, o mais importante: retomam a capacidade de enxergar sentido e futuro. O sofrimento que antes parecia sem saída passa a ter direção e isso muda tudo.
Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É, na verdade, um dos atos de autocuidado e coragem mais importantes que uma pessoa pode ter.
O tabu em torno da psiquiatria — e por que ele precisa acabar
Ainda hoje, muita gente hesita em procurar um psiquiatra. O medo do julgamento, o receio de ser “rotulado” ou a ideia equivocada de que “isso é coisa para os outros” afastam pessoas que, na verdade, precisam e merecem cuidado.
Alguns mitos que ainda precisam ser desfeitos
– “Ir ao psiquiatra é para quem está ‘muito mal’.” Na verdade, quanto mais cedo o cuidado começa, mais leve costuma ser o caminho de tratamento.
– “Falar sobre suicídio pode ‘plantar a ideia’ na cabeça de alguém.” É o contrário: conversar de forma aberta e respeitosa reduz o risco, porque tira a pessoa do isolamento.
“Quem fala sobre suicídio não vai fazer.” Falar sobre o assunto é, frequentemente, um pedido de ajuda que precisa ser ouvido com seriedade.
– “Isso é frescura ou falta de fé/força de vontade.” Doenças psiquiátricas são condições de saúde, com base biológica, psicológica e social, não são escolhas.

Falar sobre o tema é um ato de cuidado coletivo
Quando uma sociedade aprende a falar sobre saúde mental sem medo, ela também aprende a cuidar melhor de si e dos outros.
O Setembro Amarelo existe justamente para lembrar disso: quebrar o silêncio é, muitas vezes, o primeiro passo para salvar uma vida.
Um cuidado que não pode ter data para acabar
É importante dizer isso com todas as letras: falar sobre saúde mental e sobre suicídio não pode ser um assunto de um mês só. O Setembro Amarelo cumpre um papel fundamental de mobilização e visibilidade, mas o sofrimento psíquico não escolhe época do ano, e o cuidado também não pode.
Depressão, ansiedade, transtorno bipolar e outras condições associadas ao risco de suicídio precisam de acompanhamento contínuo, em janeiro, em julho, em qualquer mês.
Setembro pode ser o mês que acende o alerta. Mas o cuidado de verdade acontece todos os dias do ano.
Você não precisa passar por isso sozinho
Setembro é amarelo, mas o cuidado com a saúde mental precisa ser todos os dias. Se você reconheceu, neste texto, sinais de sofrimento em você ou em alguém próximo, não espere.
Dar o primeiro passo pode parecer difícil, mas você não precisa dar esse passo sozinho. Um atendimento psiquiátrico acolhedor, ético e individualizado pode ser o início de uma nova fase.